terça-feira, 30 de Outubro de 2012

Para lá do Marão ...

Dizem que "para lá do Marão mandam os que lá estão". Será certamente essa força, essa crença numa terra que lhes pertence, que faz com que os transmontanos façam questão de a tratar tão bem. De a não deixar cair no abandono e no esquecimento, de a fazer produzir o que ela pode e quer produzir.

Não quero fazer deste post uma descrição romântica da vida da aldeia e do campo, que viver da terra só é romântico para nós, os que na cidade vão "colher" os alimentos às bancas dos supermercados ou mesmo que seja à casa do lavrador vizinho ou mesmo ao nosso quintal, mas que não andamos de enxada na mão sete dias por semana, durante largas horas. Também não vou dizer que todo o Trás-os-Montes é um paraíso sem as terras abandonadas que nos habituamos a ver por estas bandas mais próximas do litoral, do lado de cá do Marão, até porque não conheço todo o Trás-os-Montes. Vou dizer, sim, que gostei do que vi. Gostei dos castanheiros e figueiras carregados de frutos, das amoras silvestres, das nogueiras, dos rebanhos, dos campos espraiados de abóboras e couves e cenouras. Gostei de trazer para casa um bom punhado de cenouras acabadas de arrancar à terra e de comer uma sopa com uma couve também colhida no momento.

Amoras - nos caminhos de Dine

Os castanheiros acompanhavam-nos a cada passo
A aventura de um passeio começa sempre dias antes com a procura de informações sobre o local que escolhemos para destino: o que visitar, onde comer e onde dormir. Este não abriu qualquer excepção. Cada um já levava uma ideia de alguns locais a visitar, o resto foi criado pela oportunidade.

A hortelã viçosa na margem do Rio Onôr
Ponto de encontro: Vila Nova de Gaia. A partir daí uma viagem sem sobressaltos até Bragança, a não ser a lentidão e os desvios provocados pelas obras do IP4. Em Bragança esperava-nos o nosso anfitrião para nos conduzir à "Casa dos Nove Mestres da Mina", uma casa retiro no cume da serra de Montesinho, em pleno Parque Natural. Teve em tempos o destino de albergar o Clube Recreativo de Mineiros, hoje recebe quem procura uma pausa do bulício e conhecer o muito que anda por aí escondido do nosso Portugal. Apenas acessível por uma estrada de terra batida e isolada numa paisagem magnífica, a casa encontrava-se lindamente mobilada e equipada. Seria o nosso "retiro" pelas duas noites seguintes, guardados pelos 9 pinheiros que se alinhavam na frente da casa.






Depois da óptima recepção e como a manhã já ía longa a entrar pela tarde dentro, rumamos ao local mais próximo para repasto: "O Javali". Está-se mesmo a ver o que escolhemos para a ementa. Em Trás-os-Montes claro que o javali, grelhado ou estufado, tinha que vir acompanhado das castanhas, mas o que eu gostei mesmo foi do pão a ensopar no molho. Que querem? O pão é mesmo a minha perdição...




O dia estava a meio mas ainda prometia muito. Seguimos para Bragança.





O Museu Ibérico da Máscara e do Traje era já um destino marcado. Aqui reúne-se um espólio de máscaras e trajes usados nas "Festas de Inverno" em Trás-os-Montes e Alto Douro e em Zamora.



Sempre me fascinaram aquelas máscaras, que fazem do Carnaval uma festa tão diferente da que festejamos por cá. Uma festa assustadora com as investidas e os chocalhos dos Caretos e dos Facanitos. Uma festa mística por marcar um período de transição: o fim do Inverno e entrada da Primavera, período marcante para a agricultura. Assume também um significado religioso: o fim da folia e a entrada no período de introspeção que é a Quaresma. As tradições mantêm-se e pelo Carnaval os homens das aldeias transmontanas (e não só: também em Lazarim se festeja assim o carnaval) envergam vestimentas feitas de colchas franjadas, vermelhas, verdes e amarelas e usam uma máscara rudimentar. O anonimato que a máscara lhes dá permite-lhes tomar as maiores liberdades. De chocalhos à cintura lança-se pelas ruas das aldeias numa folia permanente, procurando "chocalhar" as raparigas solteiras, num ritual de fertilidade. As tradições mantêm-se, mas mais comedidas que em tempos idos, em que as bricadeiras destes "demónios à solta" eram bem menos simpáticas. Aqui, no Sitio Oficial dos Caretos de Podence, podem ler com detalhe toda a história e tradição deste Carnaval.






De novo na estrada. O próximo destino há-de ser Rio de Onor ou Ruidenore em rionorês, o dialecto local. Uma aldeia, dois países. De um lado Portugal, de outro lado Espanha. Rio de Onor e Riohonor de Castilla.  Aqui mantém-se o espírito comunitário, a partilha do forno, dos terrenos e do rebanho. A partilha e entre-ajuda é um modo de vida em Rio de Onor.



Rio de Onôr - Igreja

Rio de Onôr para cá da ponte, Riohonor de Castilla para lá da ponte

Ainda Rio de Onôr
As abóboras estendem-se pelos campos e não resistimos em tentar fazer negócio. Na mala vieram uma abóbora e um punhado de cenouras acabadas de arrancar à terra, algumas ainda com a rama, para espanto de quem mas vendeu que a rama não tem proveito e que "aqui somos pobres, mas ricos no comer".


Daqui veio na mala uma abóbora e um punhado de cenouras acabadas de arrancar à terra
Passamos a fronteira em direcção a Puebla de Sanábria. O dia começava a cair e a arrefecer. A fome não era muita, mas convinha aconchegar o estômago, que "quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia". Demos uma pequena volta pelo centro histórico, acabando por escolher o restaurante de "La Posada de Puebla de Sanabria" para jantar, antes de regressar a casa. Um restaurante micológico, onde a especialidade são, como não podia deixar de ser, os cogumelos. Na Sanábria começa a crescer o "micoturismo", destinado aos aficionados pelos cogumelos, uma vez que aqui se desenvolvem várias espécies comestiveis, existindo, mesmo a Escola Micológica de Sanábria.





Novo dia, novas descobertas. O destino é Vinhais: comprar enchidos e visitar o Parque Biológico. Cumprido o primeiro objectivo no final da manhã, na Fumituela, e já com o saco recheado de alheiras, salpicão, chouriço e mel, perguntamos onde poderíamos almoçar bem. Indicaram-nos o restaurante churrascaria "O Silva" a dois passos dali e lá fomos. O Sr. Silva revelou-se um excelente anfitrião, bem disposto q.b. e de pois de uma posta bem servida, que não era possível ir a Trás-os-Montes e não comer uma posta, ofereceu-nos um Licor das Pedras (um licor de vinho delicioso produzido na Casa das Pedras na aldeia de Montesinho) para acompanhar o café e não resistimos a pedir-lhe que se juntasse a nós num brinde. É o que dá portugueses à volta de uma mesa: há sempre boa disposição. E a simpatia do Sr. Silva não se ficou por aqui: à saída ofereceu-nos duas alheiras caseiras, que acabaram por ser o nosso jantar nesse dia, mas disso falarei mais adiante.

Seguimos então para o Parque Biológico de Vinhais. Aqui podemos ver um pouco da flora e fauna transmontana. Desde as aves de rapina às galinhas e patos, do porco bísaro aos javalis, os veados e o simpático burro mirandês.






  
Além deste polo o parque conta com mais três pólos complementares: o Alto da Ciradelha, que não visitamos, a Charca da Vidoeira e a Barragem de Prada, todos acessíveis a pé, de bicicleta ou de automóvel.

Barragem de Prada
Aproveitando as indicações do Percurso Automóvel do Baceiro, publicado no site do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas percorremos estradas ladeadas de prados, carvalhais e soutos. Fazemos paragem em Dine, uma aldeia encantadora, com as casas de construção típica da região bem conservadas e recuperadas. Aqui são pontos de interesse a Lorga (gruta) de Dine e os Fornos da Cal.


Dine - Cruzeiro

Dine - Escadaria da Igreja

Dine - Fornos de cal
Estava na hora de regressarmos a casa. O dia havia sido longo e o cansaço começava a aparecer. Mais uma paragem, apenas, na aldeia de Montesinho, uma aldeia viva e bem preservada, mais um exemplo de como as nossas aldeias pode ser bonitas. Os campos cultivados fizeram-nos pensar em como era bom jantarmos uma sopa aconchegante. Tinhamos as alheiras do Sr. Silva, mais umas tantas iguarias. Tínhamos as cenouras e abóbora de Rio de Onor, faltava mesmo uma couve. Acabamos por travar conhecimento com a D. Rita que prontamente nos colheu, a troco de um euro, mais coisa menos coisa, uma couve tronchuda, uma cebola gigantesca e duas batatas. Quase parecia que pedinchávamos para uma sopa da pedra, mas essa seria o último ingrediente, que os outros  já os tínhamos. Por falar em pedras, a Casa das Pedras estava fechada, com grande pena minha que tencionava comprar uma garrafa do licor que havíamos provado ao almoço, mas descobrimos a Casa da Edra e as suas compotas, licores e bolachas (as de doce de castanha e de maçã são uma delicia). Ficou a encomenda do pão de castanha para o dia seguinte.

Montesinho - Casa da Edra


Montesinho - Casa das Pedras


Aldeia de Montesinho


Montesinho - Adro da Igreja

E assim chegou a hora do jantar:. alheira grelhada, chouriço, queijos, pão regional, a sopa que podia ser da pedra e um vinho da região.


Uma sopa maravilhosa
Estava a chegar ao fim o passeio. Um longo passeio de três dias. No Domingo de manhã, depois do pequeno-almoço e de tudo arrumado, rumamos em direcção a Macedo de Cavaleiros. Ía terminar aí o nosso passeio. A Praia Fluvial do Azibo era o último "must see" que trazíamos na ideia. Nunca fui  muito amiga do "concurso das maravilhas", sejam elas quais forem, por o achar redutor. São tantas as maravilhas que existem neste Portugal, cada uma com a sua caracteristica, com a sua paisagem envolvente, com a sua história que as tornam únicas, que não percebo porque é que umas têm que ser mais maravilhas que outras, mas admito-lhe (ao concurso) a qualidade de conseguir fazer alguma divulgação dos lugares que todos merecemos conhecer e a Praia Fluvial do Azibo é, certamente, um desses lugares.
  


O almoço de despedida foi feito  no restaurante "O Montanhês". Uma refeição bem servida para celebrar mais um encontro. Daí a pouco rumaríamos de regresso a casa, pensando já na próxima reunião.

Muito ficou por ver e conhecer, o que é um excelente motivo para um regresso a terras transmontanas. Para já vamo-nos deliciando com o que trouxemos, comprado ou apanhado dos caminhos como a maçã, as nozes e os figos (estes oferecidos, em Dine, por uma senhora que os arrancava da figueira).


  

Compotas de morango e de abóbora do Fumituela e compotas de baga de sabugueiro e de castanha da Casa da Edra. Da Casa da edra também vieram as bolachinhas de maçã e o pão de castanha (em baixo)
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